O contrato implícito entre empresas e talento mudou. O desalinhamento não é novo, mas nunca foi tão visível, como destaca Alexandra Andrade, Country Manager da Adecco Portugal. Por Alexandra Andrade, Country Manager Adecco Portugal In RH Magazine
Como tem a Adecco Portugal apoiado a redefinição das estratégias de talento? E que desalinhamentos existem hoje entre oferta das empresas e expectativas dos profissionais?
Na Adecco Portugal, evoluímos de um modelo tradicional de prestação de serviços para uma verdadeira arquitetura estratégica de talento. Hoje, ajudamos as organizações a encarar a atração não como um processo isolado, mas como um ecossistema de confiança, onde a promessa da marca empregadora está totalmente alinhada com a experiência real do colaborador.
O principal desalinhamento que identificamos reside na forma como as organizações continuam, muitas vezes, a valorizar benefícios transacionais, enquanto os profissionais, sobretudo os de maior potencial, procuram autonomia, propósito e impacto. Existe uma expectativa crescente por culturas que promovam o desenvolvimento contínuo, a inovação, a criatividade e a saúde mental como pilares estratégicos.
O nosso papel passa por garantir autenticidade na proposta de valor, criando uma ponte sólida entre a eficiência que o negócio exige e o bem-estar que o talento valoriza. Porque, no final, são as pessoas que sustentam qualquer estratégia de crescimento.
A Adecco apoia os seus clientes com soluções integradas como outsourcing, OnSite e consultoria de desenvolvimento de equipas. Que resultados mensuráveis têm observado?
A adoção de soluções integradas permite às organizações fazer uma transição clara de uma gestão reativa para uma abordagem verdadeiramente estratégica. Modelos como o OnSite e o Outsourcing permitem-nos assumir a complexidade operacional e a responsabilidade pelos principais indicadores de desempenho, libertando os líderes para decisões de maior impacto no negócio.
O trabalho temporário continua a ser uma ferramenta crítica para a gestão de picos de atividade e para garantir agilidade operacional em contextos de elevada variabilidade. Paralelamente, a área de learning & consulting tem registado um crescimento muito significativo, impulsionado pela necessidade urgente de requalificação e desenvolvimento contínuo. Num contexto em que a inteligência artificial (IA) acelera a transformação organizacional, apoiamos os nossos parceiros desde o diagnóstico até à implementação de programas de reskilling e upskilling, criando bases sustentáveis para o futuro.
Os resultados são claros: maior estabilidade operacional, redução do turnover e ganhos consistentes de produtividade, sobretudo em setores de elevada exigência como o industrial e o tecnológico. Em vários projetos, conseguimos também aumentar significativamente os níveis de engagement, através de programas estruturados de desenvolvimento de equipas. Mas talvez o maior valor seja a “paz operacional” que devolvemos às organizações, permitindo que se concentrem no que realmente as diferencia: crescer, inovar e liderar.
De que modo está a Adecco a apoiar as empresas na antecipação de riscos e na tomada de decisão?
Atuamos como um verdadeiro radar estratégico num mercado cada vez mais volátil. Apoiamos as organizações a transformar incerteza em decisões informadas, através de inteligência de mercado e análise preditiva. Mais do que dados, entregamos contexto. Ajudamos a interpretar tendências demográficas, dinâmicas salariais e movimentos de talento, permitindo às empresas agir de forma preventiva, antes que os riscos se materializem. Desenvolvemos também planos de Workforce Planning a médio e longo prazo, antecipando escassez de competências críticas e desenhando estratégias de requalificação interna.
Num contexto de constante mudança, decidir com base em informação sólida é o que garante clareza, agilidade e sustentabilidade. As competências híbridas estão a ganhar relevância. As empresas estão preparadas? Que lacunas identifica?
As competências híbridas, a combinação entre domínio tecnológico e competências humanas, como pensamento crítico, empatia e colaboração, são hoje o maior diferencial competitivo. As empresas portuguesas estão cada vez mais conscientes desta realidade, mas ainda enfrentam desafios na sua avaliação estruturada. Continua a existir uma tendência para privilegiar competências técnicas imediatas, em detrimento da adaptabilidade e do potencial de crescimento.
A maior lacuna está na chamada “learnability”, a capacidade de aprender, desaprender e voltar a aprender, e na agilidade emocional. Num mundo em constante disrupção, estas são as competências que verdadeiramente distinguem os profissionais e as organizações. Na Adecco, trabalhamos para ajudar os nossos clientes a olhar além do currículo, avaliando o potencial humano de forma mais holística e preparando as empresas para desafios que ainda não estão totalmente definidos.
Que debates considera urgente colocar na agenda dos líderes de RH no Fórum RH deste ano?
O tema mais urgente é, sem dúvida, a humanização das organizações num contexto de crescente automação. A IA traz uma oportunidade única: libertar o potencial humano para tarefas de maior valor, reforçando a criatividade, a colaboração e o pensamento estratégico. Mas isso exige uma reflexão profunda sobre o papel da tecnologia, que deve ser um facilitador de conexão, e não um fator de distanciamento. Precisamos de discutir como manter culturas fortes, níveis elevados de confiança e lideranças inspiradoras num contexto de transformação acelerada. E, sobretudo, como preparar as pessoas para funções onde a ética, a colaboração e a capacidade de decisão serão cada vez mais determinantes. Na Adecco, acreditamos que o futuro do trabalho não será definido apenas pela tecnologia, mas pela forma como escolhemos usá-la para potenciar o melhor de cada pessoa. Porque, no final, fazer o futuro funcionar para todos começa e termina nas pessoas.
